sabe, mãe. é muito engraçado. esta é mais uma das vezes que sou tachada de ‘filha assassina’ por um motivo – que, sinceramente considero – muito pequeno.
chegar tarde no domingo, desrespeitando o combinado não foi correto. mas justificável. aceite ou não a tal, ela – mais uma vez usando a primeira pessoa – é bastante válida.
há alguns dias comentei sua carência, brincando com isso. isso ali, sentadas na mesa do clube. a senhora riu, mas concordou. e estávamos lá porque a senhora me pediu para acompanhá-la. normal. acho bem normal te acompanhar ao clube ou ao cinema. admiro também quem o faz, fora nós duas.
porém, era sábado. um tempo que eu podia estar com meus amigos ou namorado.
outros sábados seguiram do mesmo jeito. e o meu tempo com quem eu só posso ver nesse dia e/ou domingo, reduzido a um dia.
tudo bem.
ontem a mesma cena se repetiu várias vezes. com mais chacotas.
eu tinha um convite para almoçar e um para caminhar no fim da tarde. não fui e fiquei com vocês. muito em prol do ‘programa em família’, do ‘passar tempo com os pais e socializar’. por causa desse almoço e da correria que se seguiu, também não vi ninguém do meu convívio ‘além dos portais de casa’.
fui à uma festa e não me senti à vontade em momento algum – tanto por pessoas, tanto pelo fracasso na roupa -, servir de companhia e fazer mais uma vez o papel que o seu marido deveria exercer sem tacar a batata pra mais ninguém. e devia fazê-lo sem chiar, inclusive, em nome de tudo o que a senhora faz por ele.
ontem, no clube, no cinema, fazendo orçamento de carros. tenho estado presente nessas pequenas coisas que não são realmente funções minhas. e sim, opções. eu simplesmente gosto de fazer isso, por ser a minha mãe e ser minimamente grata por todos os desdobramentos que brotam quase que do além por mim.
e a senhora bem sabe que se eu não quisesse de fato, não faria.
hoje, domingo, como em muitos outros, o meu tempo pra ver e conversar e conviver com pessoas que gosto e também gostam da minha presença estava reduzido. com as desistências sobre inhotim, todo – sato e lori – mundo também tinha coisas extras pra fazer enquanto eu estava, mais uma vez, te acompanhando. quando o sato foi liberado e finalmente consegui contato com a lori, já era relativamente tarde. saímos, fomos conversando e o tempo que era curto passou rápido demais. eu não vi quando passou das 23h. pra mim, ainda eram 21h.
a senhora pode argumentar que a zia fazia tudo isso sem reclamar. é, verdade. mas ela namorava? não. e enquanto com o olavo, quantas vezes ela largou o final de semana com ele pra ir ao clube com a senhora? nenhuma. ela tinha amigos que faziam questão dela como se fossem irmãos? não. eu não tenho vários desses não, mas sou observadora o suficiente pra dizer quem é que pode me acompanhar em um momento de dificuldade grande. a lori alguma vez saiu do meu lado ou esteve indisponível nesse meu período de crise? não.
então, o que de fato fiz de errado, mãe? assim, de tão grave?
eu não consigo ver a profundidade do crime que eu cometo querendo aproveitar o pouquinho de tempo que tenho com as pessoas que eu gosto e que não posso ver ou acompanhar todo dia. opção. assim como opto por ficar com a senhora de vez em sempre. assim como a senhora faz diversas opções na vida – as quais não posso intervir. opção, a minha, que friamente não é tão grave que precisa carregar ’sofrimento’ de adjetivo.
confiscando minha chave, me proibindo de ir à faculdade, me proibindo de ver quem me faz bem – coisa que meu próprio pai é incapaz de fazer?
a minha casa pode não ser um hotel, mas não quero acreditar que seja uma prisão.
♫ munchausen by proxy – uh huh









